sexta-feira, 10 de agosto de 2012

A voz do recém nascido

Eu vivo tentando escrever meus próprios textos mas cada vez que me deparo com textos tão sábios como esse, não consigo deixar de postá-los aqui. Parece que tudo que sinto e não consigo verbalizar de repente saltam à minha frente com palavras tão claras e perfeitas. E essa Laura Gutman, o que é essa mulher?? Fantástico o que ela nos mostra assim com tanta delicadeza, coisas tão óbvias que muitas vezes demoramos um pouco a enxergar.

A voz do Recém nascido - Por Laura Gutman


Hoje nós mulheres trabalhamos ao lado dos homens, fato que vivemos com orgulho e satisfação. Além disso nenhuma mulher está disposta a voltar ao passado de submissão  econômica, religiosa ou moral. Nós nos sentimos livres ao gozar por fim da autonomia largamente merecida. Logo nos felicitamos mutuamente pela vitória das liberdades individuais. Até aí estamos todos de acordo.


Quem talvez não esteja tão de acordo é o bebe recém-nascido. Porque como mamífero humano, nasceu “sem terminar”. Quer dizer, vai necessitar de nove meses de “gravidez extrauterina” para completar os nove meses de “gravidez intrauterina”, esperando encontrar a mesma qualidade de conforto, prazer, movimentos, alimento, odores, olhar e presença que experimentou no ventre de sua mãe. Esta torrente de experiências agradáveis poderá recebê-las dentro de um entorno feminino, ou mais precisamente dentro de um entorno maternante.


Os bebes recém-nascidos não foram convidados à festa dos tempos modernos. Não tem voz nem voto nessas decisões. Nós, as pessoas grandes, não nos damos ao trabalho de averiguar o que é o que eles, em sua especificidade de crianças tão pequenas necessitam: basicamente seguir navegando na sutileza da energia materna. Mas tem algo mais que permanece oculto no pensamento coletivo: a espontânea e intima escuta da mãe ao chamado do recém-nascido, e a intransferível conexão que cada mulher sente em respeito a seu próprio filho.


Para permitir-nos reconhecer que a necessidade de permanecer junto também é nossa, nós mulheres deveríamos sentir-nos cuidadas, atendidas, apoiadas e alicerçadas. Liberdade não é depender dos próprios recursos para existir.




Liberdade não é trabalho de jornada dupla ou tripla. Não somos livres quando somos expulsas ao mundo do trabalho vendo-nos obrigada a abandonar a cria. Isso é o que nos fizeram crer - e aceitamos como certo - enganadas com a cenoura da modernidade.

Na realidade, somente somos livres quando outorgamos a possibilidade de viver a fundo cada etapa da vida. E o primeiro período da maternidade é uma muito especial. Além de tudo dura pouco tempo.   

Laura Gutman



(tradução Flavia Penido)
Texto retirado do Blog Roda Bebedubem de Flavia Penido

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