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segunda-feira, 7 de abril de 2014

Somos todas Adelir - Mulheres que romperam com o sistema


A que ponto chegamos, gestante arrastada pela polícia para fazer cesariana contra sua vontade, alegando que o bebê corria risco, o que é desmentido pelos exames feitos na hora pela gestante. 

Para que nenhuma mulher mais passe por violência obstétrica, para que seus desejos sejam respeitados e para que nosso modelo de assistência mude URGENTEMENTE. 

Para mudar o mundo é preciso primeiro mudar a forma de nascer.

Por mulheres respeitadas.

Por nascimentos respeitosos.

Para saber mais:

É urgente uma Nova Obstetrícia. Uma reciclagem, uma revolução, seja o que for.
Não é mais aceitável que os médicos brasileiros exerçam uma medicina mentirosa, falha, mercenária, suja, arbitrária e desumana dessa forma. Baseada em achismos, em opiniões pessoais, em egocentrismo e no péssimo modelo de formação que tiveram. 
Lamentável é pouco. 
A única coisa boa nisso tudo é que aos poucos as mulheres estão acordando. Resgatando seus corpos, seus direitos, suas bocas e suas vontades e o movimento da humanização ganhando cada vez mais força
Triste que para cada mulher que foge do sistema existe ainda nove "Adelir" sendo violentadas. 

#sistema:eunaotepertenço
#somostodasadelir
#medicinabaseadaemevidencias


Uma singela homenagem... Mas aos poucos vamos mudando o mundo... 

                           



























Meu sangue corre nas veias. Semana de pródromos me deixa assim. E vamos que vamos!!



sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Boas vindas, só que não... É isso mesmo o que eu quero??

Esta semana começou a circular um vídeo de um recém nascido que chamou muito a atenção, todo mundo se referindo como lindo, milagre, emocionante, etc. O bebê acaba de nascer e demonstra que não quer sair de perto da mãe, estende os bracinhos em sua direção enquanto é levado para longe. A mãe, na mesa cirúrgica, após a cesariana, sem nem ao menos poder pegar o filho no colo. Para mim, tão defensora do acolhimento e do vínculo entre mãe e bebê no nascimento, o sentimento ao vê-lo foi de dor, pena, tristeza. Gostaria que todo mundo parasse um pouco para refletir sobre o que achamos tão normal na nossa realidade e aceitamos que façam a nós e a nossos filhos num momento tão especial e único que é o do nascimento deles.
O texto que acompanha o vídeo é, no mínimo, curioso.

"Incrível, um bebê recém nascido acaba de nascer e já não quer deixar a sua mãe, observe que ele mal chegou ao mundo e quer estar pertinho dela. 
Tá aí um vídeo que não se vê todos os dias. Tudo o que ele queria era ficar abraçadinho com a sua mãezinha, apesar de ela estar imobilizada na mesa de cirurgia, ficou um pouco difícil para ela retribuir esse amor, mas se nota que ela fala com ele. Espero que todos gostem do vídeo." (Blog A Força das Palavras)


Esta é a cena que representa nossa realidade obstétrica, mães atadas à mesa cirúrgica, imobilizadas, e bebês recepcionados sem a menor sensibilidade, acolhimento e calor. Retirados do útero sem aviso prévio, muitas vezes prematuramente (mesmo um bebê a termo, fora de trabalho de parto significa que foi nascido antes da hora), manipulados por estranhos através de gestos bruscos e mecânicos e passando por diversos procedimentos desnecessários, invasivos e muito doloridos. Isso tudo em seus primeiros minutos de vida, em seu primeiro contato com o mundo exterior. Algo assim: Boas vindas, só que não...
Ninguém se coloca no lugar do bebê, que passou 9 meses quentinho, acolhido, no escurinho e no aconchego de sua mãe e é recebido desta forma. Não puderam ter nem ao menos um tempo para se olharem, se cheirarem, se tocarem. No lugar do colo da mãe mãos estranhas, no lugar do calor humano berço aquecido. Em seguida, é levado para longe, enquanto chora, se debate e todo mundo acha lindo, admirável como o bebê é forte ou bravo. Vai voltar para os braços da mãe muitas horas depois, após momentos nada agradáveis com desconhecidos no berçário do hospital.

Ao contrário do que diz o texto, que "isso é algo que não se vê todos os dias", essa é a cena que se vê todos os dias, a todas as horas, por qualquer motivo e principalmente sem nenhum motivo nas maternidades brasileiras. Mulheres estão deixando de dar à luz a seus filhos e deixando de viver a experiência mais marcante e especial para ambos para se permitirem a essa invasão e insensibilidade num momento que deveria ser unica e exclusivamente carregado de cheiros, toque, calor, afeto e reconhecimento.


Os profissionais que defendem a humanização do parto e nascimento dizem: "A não ser que haja algum risco muito sério, jamais deve-se separar mães e filhos no nascimento. Se precisar de alguma intervenção ou procedimento, fazer no colo da mãe. Bebês que são levados para longe da mãe, em procedimentos dolorosos, tem seu nível de cortisol aumentado em 10 vezes mais."

Ao contrário, bebês que nasceram através de condutas humanizadas (termo tão falado hoje em dia mais ainda tão mal compreendido), tiveram seu momento de nascimento respeitado, foram acolhidos, abraçados, amamentados e puderam ficar em contato permanente com seus pais, regulam melhor a temperatura corporal e a saturação de oxigênio, demonstram muito mais tranquilidade, menos choro e tem muito menos chances de problemas na amamentação, pois tiveram o estímulo de sucção nos primeiros instantes após o nascimento (momento de vigília do recém nascido. Após isso entra num estado de latência e dorme profundamente).

A realidade NUA E CRUA estampada. Aqui ninguém posou para a foto. Qual imprinting (registro, marca, uma "janela" que acontece no momento do nascimento e tem efeitos no vínculo mãe-bebê) queremos deixar?

 

 

 

Você, óbvio, quer dar boas vindas ao seu bebê... Existe essa opção. Não deixe para depois, pois esse momento não volta mais. O parto humanizado é opção sim, para todos. Hoje é possível buscar esse modelo de assistência, dentro das mais diversas realidades. Com apoio profissional adequado, seguro, amparado e embasado em evidencias científicas e pesquisas atuais no mundo todo e nos melhores modelos obstétricos mundiais. 
Você quer saber mais sobre parto humanizado? Pergunte-me como.

Fica aí uma questão muito importante para se refletir. Que tipo de recepção queremos dar a nossos filhos? Que tipo de experiência queremos viver no parto?
E ainda mais: quais serão as consequências futuras de procedimentos tão invasivos, medicalizados e intervencionistas? 
Que tipo de valores, sentimentos e tendências estamos incentivando em nossa sociedade?

“A Civilização começará no dia em que o bem estar dos recém-nascidos prevalecer sobre qualquer outra consideração”.
" Para mudar o mundo é preciso primeiro mudar a forma de nascer". 

Assista o filme, documentário recorde nas bilheterias, já lançado em DVD, muito emocionante e esclarecedor:
"O Renascimento do Parto - o Filme"

Leia também:

Quais os procedimentos-padrão que TODOS os bebês passam dentro dos hospitais e maternidades brasileiras? Leia:




sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Mas o quê, mesmo, hein??

"- Você está querendo me dizer que se eu abrir essa porta e passar para lá vou poder agir de acordo com o que penso, ser livre para decidir e fazer como gostaria, dançar a música que gosto e me realizar de verdade com a vida que escolhi?
- Sim, é isso que estou te dizendo. Experimente e verá, não precisa ficar só olhando da janela. A porta está ali, é só abrir e espiar. Um passo só, você pode.
- Mas..."

Sim, nós podemos. É só querer de verdade. Confiar. Assumir as próprias escolhas e responsabilidades. Dá mais trabalho sim agir, e muitas vezes, precisamos nos empenhar para conseguir, sacrificar algumas coisas. É mais fácil aceitar, consentir, esperar que façam por nós. Mas vai te realizar?

Abra a porta. Se estiver trancada, pule a janela. A vida é uma só, pelo menos essa que estamos vivendo agora. E é curta. E os momentos não voltam.

Vai ser feliz! Vai se realizar! Esquece o "mas". Mas o quê, mesmo, hein??



quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Maternidade ativa, por um mundo melhor


O que é Maternidade Ativa?

É ser protagonista, fazer escolhas conscientes do que se quer e do que não se quer.
Começa na busca de informações, na saída da zona de conforto, nas dúvidas, nos questionamentos.
Para fazer escolhas conscientes é preciso conhecer, entender, questionar, refletir.
Para então decidir.
E viver a decisão, construir os caminhos, reconstruir o que não serviu.
Todas nós podemos ser mães melhores, mulheres melhores e transformar as dores e as delícias da maternidade em uma relação intensa e profunda de auto-conhecimento e aprimoramento pessoal.
Podemos sim, deixar filhos melhores para o mundo, e também um mundo melhor para nossos filhos.

Ligia Moreiras Sena diz: 
"Essa é a forma de maternar que se pretende para um mundo novo. Uma maternidade em que as mães sejam as responsáveis por suas escolhas, que vivam aquilo que escolheram por refletirem a respeito, sem viver somente as escolhas de outras pessoas. O que hoje buscamos é uma forma de ser mãe que liberte e fortaleça a mulher, que lhe dê autonomia, coragem e que fortaleça sua auto-estima, colocando-a como peça de mudança ativa no mundo. E que essa mulher, assim liberta, corajosa, autônoma e com a auto-estima em dia, tenha condições de criar filhos com base no respeito, apego, afeto e amor. 
Ser mãe é ter a chance de ser a mudança que queremos ver no mundo."



Maternidade Ativa no Espaço Nona Lua

Ginástica para gestantes * Preparação para o parto * Consultoria * Apoio para o parto e pós-parto * Amamentação * Dificuldades * Orientações * Grupo de Mães * Ginástica Mamãe-Bebê * Acupuntura  
Vila Mascote - São Paulo



quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

"Das doulas como testemunhas"




Av. Paulista 03/02/2013 Movimento pelo direito às doulas

Nós estivemos lá.
Em meio a muita gente, balões coloridos, respeito, alegria, apoio e união, nós marchamos.

Carreguei o peso extra de 14 kg no sling por mais de 2 horas de caminhada, e no coração o peso da dor de tanta gente. Mas a alma lavada, livre, leve e certa de que a rede do bem abriu e ainda vai abrir muitos caminhos.

Estivemos lá pelas mulheres enganadas. Por aquelas que foram recriminadas, criticadas, subestimadas, julgadas como loucas. Pelas desamparadas, pelas violentadas. Por aquelas que não tiveram acesso à informações verdadeiras. Por aquelas que foram alvo de mentiras e até mesmo de indicações criminosas.
Tiveram seus sonhos roubados, seus partos perdidos e seus corpos violentados .
Por cada barriga cortada injustamente e por cada bebê que sofreu as consequências dessa violência quando deveria apenas ter sido recebido no aconchego do peito de sua mãe.
Por todas as doulas, mulheres maravilhosas que tem a vocação e o dom de levar amor, apoio e segurança ao parto.
É HOJE, NESSA SOCIEDADE CARACTERIZADA PELA AMBIÇÃO E PELA IGNORÂNCIA, QUE A DOULA SE TORNA MAIS DO QUE NECESSÁRIA.


 Eu e meu rebento Henrique e a maravilhosa companhia da minha amiga Thielly e Miguel.


Segue texto abaixo de Mariana de Mesquita:


DAS DOULAS COMO TESTEMUNHAS





Nos últimos dias, uma rede de maternidades de São Paulo proibiu a entrada de doulas, profissionais que prestam suporte emocional e físico à mulher antes, durante e depois do parto. Diante da repercussão negativa na imprensa e nas redes sociais, mudaram de estratégia: a gestante teria direito a um único acompanhante no parto, devendo escolher entre a doula e o marido. A justificativa era reduzir os índices de infecção hospitalar.
Se a preocupação é essa, por que não limitam também o acesso das equipes de fotografia e filmagem? Por que não se esforçam para reduzir os altos índices de cesariana, em torno de 90%? A verdade é que o trabalho das doulas, embora respaldado pela Organização Mundial da Saúde, não se encaixa em nosso modelo de assistência obstétrica, arbitrário e centrado na figura do médico.
Nos países desenvolvidos, com as menores taxas de mortalidade materna e fetal, o pré-natal, o parto e o pós-parto são acompanhados por obstetrizes e enfermeiras obstetras (parteiras). O médico só é chamado em casos considerados de risco.
Por aqui, o incômodo causado pela presença das doulas está ligado ao poder que elas ajudam a mulher a conquistar, o de serem donas de seus próprios partos. Mulheres que tiveram o acompanhamento de uma doula na gravidez são questionadoras, pois sabem do seu direito de decidir sobre o parto. Um perfil bem diferente do desejado por hospitais, onde a boa paciente é aquela que se recolhe à posição de coadjuvante.
A mulher informada, ao contrário, tem nome próprio: não aceita ser infantilizada, ser chamada de "mãezinha". Não aceita soro de rotina, corte desnecessário na vagina, ser separada do seu filho sem real motivo. A mulher informada sabe que pode escolher em que posição, como, onde e com quem prefere dar à luz. Não está acima nem abaixo da autoridade médica ou do protocolo hospitalar, pois não estabelece com eles uma relação de poder. Exige apenas que tudo esteja a favor desse importante trabalho, que somente ela pode e deve executar: trazer seu filho ao mundo.
O casal bem informado "dá trabalho" ao hospital, pois tem consciência da violência muitas vezes imposta pelos procedimentos de rotina ao corpo e à personalidade frágeis do seu bebê. Eles pesquisaram, leram artigos científicos, conhecem as leis e sentem alívio por saber que o bebê não precisa passar por procedimentos dolorosos e solitários em seus primeiros momentos de vida, apenas porque fazem parte da rotina do hospital.
Qual é mesmo o perigo oferecido pela doula? É que a doula é testemunha! Ela presencia e identifica a violência silenciosa e covarde contra dois seres (mãe e bebê), que, por conta da fragilidade do momento, não estão em condições de questionar.
Mulheres acompanhadas por doulas não se deixam convencer de que o choro desesperado do recém-nascido seja bom de ouvir, sinal de saúde! De que a clássica cena da mãe presa à cama, dopada e incapacitada, faça parte do processo de ter um filho. De que o pai ver seu filho através do vidro seja normal.
O recuo estratégico dos hospitais quanto à restrição às doulas mostra a força da voz da sociedade. Estejamos atentos às entrelinhas: agora, a doula pode entrar, desde que seja fisioterapeuta, psicóloga, enfermeira ou terapeuta. A direção clínica sabe quem é e quais são as atribuições da doula ou essa exigência é uma demostração clara da postura intransigente?
Mas o recuo estratégico não impediu a manifestação, no domingo passado, na avenida Paulista. A marcha foi uma demonstração de que a sociedade não tolera mais esse abuso.
MARIANA DE MESQUITA, 33, é doula e membro da Associação de Doulas de São Paulo (Adosp)

Poderá gostar também de: Era uma vez... num reino não tão distante... mulheres que saíam às ruas

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Eu quero parir com doula!



Como disse a mamífera Kalu Brum, entre o marido e a doula eu escolho outra maternidade!

Domingo agora estaremos todos unidos mais uma vez na busca de nossos direitos e liberdade de escolha.

Após 2 grandes maternidades vetarem a participação de doulas nos partos e a infeliz declaração de Vera Lucia Mota da Fonseca, vice presidente do Conselho Regional de Medicina, que disse que "a doula é desnecessária", um grande movimento em prol da humanização do parto está sendo organizado.

Gostaria muito de saber onde a Dra Vera se baseou para dar essa informação, uma vez que a doula desempenha seu importante papel em relação à parturiente e não ao médico ou ao hospital, portanto somente a mulher pode dizer se é necessária ou não. E pelo que me consta NENHUM outro profissional da equipe médica ou hospitalar dá suporte emocional ou sequer físico mesmo à parturiente.
Fica muito mais fácil mesmo violar os direitos da mulher quando não há ninguém tomando conta de seu bem-estar.

Pois que fique aqui registrado:

A ESCOLHA É NOSSA! NÓS QUEREMOS DECIDIR!





quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Que os finais tristes possam fazer começos felizes

Nessa minha nem tão longa jornada no mundo da gestação e do parto já pude conhecer muitas, muitas histórias. Foram relatos maravilhosos e mágicos que me trouxeram para este mundo da partolândia, vontade de visitá-lo também e, inclusive, agora de voltar lá. A vontade que tenho de voltar lá, hoje, é maior do que a que tive de conhecer, sabendo o que me espera e tendo a possibilidade de aplicar o que aprendi. Trago na bagagem  minha experiência, os prós, os contras e outras informações que conquistei nessa continuidade da minha jornada.
 Infelizmente, conheci também muitas histórias tristes, que de alguma forma viraram feridas em mim também. Talvez por eu também, como qualquer outra mulher, ter desejado um parto legal, uma história bonita, apoio de quem confiei meu corpo. Posso me colocar no lugar dessa mulher desrespeitada, enganada, machucada, que carrega dores que vão além do físico, e que infelizmente vão doer para sempre.
Cedo um espaço do meu coração para uma ferida que não é minha, mas dói também em mim, para que muitas vozes caladas e choros abafados possam serem ouvidos através de minha boca e de minhas palavras.
Muitas dessas mulheres violentadas de alguma forma, sequer sabem do que foram vítimas, muitas sequer tem auto-estima ou auto-confiança para exigirem valer seus direitos. É uma tristeza e indignação que se transformam em força para mover o mundo e deixar esperança para as próximas gerações.
Vai desde a famosa cesárea por motivo fictício até grandes traumas causados por péssima assistência. Ouvir tanta gente falando que queria ter tido parto normal, mas que no caso dela não foi possível por um motivo pra lá de duvidoso assim como mulheres que tiveram sim um parto normal, repleto de violência e desrespeito, revolta e machuca. Os médicos de convênio não vão fazer o parto, e depois da primeira cesárea as casas de parto não aceitarão pois encaixa-se em fator de risco e ninguém quer recorrer ao SUS que leva não boa fama e com razão. Tenho muitas, muitas mesmo, amigas, conhecidas, ou apenas histórias que ouço aqui e ali sobre gente que passou por isso. 
Tenho tanta pena de ouvir histórias assim, de mulheres que foram literalmente tapeadas com motivos absurdamente irreais ou induzidas a acreditar que a cesárea seria a melhor opção por seus médicos, pessoas que deveriam ser de pura confiança e transparência. Chego a me arrepiar com a frase: eu confio no meu médico, ele sabe o que é melhor e tantas e tantas vezes o desfecho foi uma cesárea eletiva, sem nem sequer ter acontecido indícios de trabalho de parto.
Pior do que isso, ainda acho, quando a mulher consegue ter o parto normal, mas totalmente desrespeitoso. A que foi enganada com uma cesárea goela abaixo, tem seu parto roubado, fica aquela sensação de revolta, de perda, mas isso pode inclusive motivá-la a buscar realmente subsídios para ter um parto de verdade. A moça que teve um parto normal sofrido, muitas vezes pode ficar tão machucada a ponto de não querer mais passar por isso. Chegou para parir sem nenhuma informação, sem nem imaginar o que é, como é e principalmente quais são seus direitos nesse momento, sofrendo uma batelada de intervenções desnecessárias e prejudiciais, que podem além de colocar em risco o bem-estar dela e do bebê, causar muitas dores tanto física quanto emocionais.
Lembro-me com detalhes da minha última semana de gravidez, passando no caixa do mercado, a moça me viu com o barrigão e puxou assunto, disse que tinha muita vontade de ter outro filho, o dela já tinha 10 anos, mas não tinha coragem pelo que sofreu no parto. Eu falei para ela: Imagina, vale a pena, vai ser diferente. E ela foi categórica: Não, eu gostaria muito, mas foi muito sofrimento.
E eu chego a encher os olhos de lágrimas por pensar que tanta violência acontece com uma mulher no momento que era para ser o mais lindo da vida dela. Encho os olhos por pensar em mim também, no  - pouco - que sofri e que só foi pouco graças ao tanto que eu me preparei e estava informada. Não foi maravilhoso, mas não foi traumático, e isso já é suficiente para contentar tanta gente... 
Posso contar em detalhes tantas histórias "ruins" que conheci, muitas delas bem perto de mim, como a de 9 amigas íntimas num período de menos de 2 anos que queriam parto normal e "não conseguiram". A maioria delas, consciente hoje de que foram enganadas, 3 delas inclusive, enganadas na primeira vez, tentaram o parto normal na segunda gravidez. 2 não conseguiram por falta de médico disposto a fazer (pelo convênio),  mas pelo menos passaram por grande parte do trabalho de parto, coisa que nem puderam experimentar antes. A terceira delas está correndo atrás para realizar seu sonho e espero de coração que consiga, algo que era para ser tão natural.
O último relato que li num grupo de apoio ao parto, de uma moça que passou a gravidez toda defendendo o parto normal é de partir o coração, tantas intervenções que acarretaram num parto tão sofrido. 
Infelizmente não são histórias raras, acontecem todo dia, toda hora, em maior ou menor grau de violência mesmo no pequeno percentual de partos normais hoje em dia. Morro por dentro ao ouvir histórias assim, principalmente quando sei que era uma vontade da pessoa ter seu parto normal, levantou a bandeira mas não se informou o suficiente, não sabia dos seus direitos, não estava ciente dos protocolos invasivos, violentos e abusivos que ocorrem indiscriminadamente.
Não é o parto que é assassino, monstruoso, doloroso, sofrido. Jamais. O parto é um processo natural e fisiológico, uma transição que pode ser muito suave e bonita, de grande transformação e plenitude.
A forma como  parto tem sido conduzido hoje é que é muito desumana. E não pense que escolhendo a cesárea você se livra disso. Muitas dores podem vir daí também.
É grande erro, dos grandes, deixar escolhas nas mãos dos médicos. Ele vai escolher muito bem, o que é bom para ele. É outro grande erro não pensar no parto, não se preparar, não buscar informações, evitar saber de histórias "ruins". Elas acontecem porque existem vítimas, existem mulheres que se submetem, seja por medo, por desconhecimento, por comodidade ou seja lá o motivo. 
Você não vai se arrepender de buscar apoio ao parto humanizado, busque! O parto é SEU.

Há uma frase que diz: Se uma mulher em trabalho de parto não está parecendo uma deusa, é porque ela não está sendo tratada como deveria.


Espero que esse texto possa servir para alertar muitas mulheres, incentivar a preparação para o parto e busca por informações que com certeza vão fazer muita diferença.

Por Marcela Buchalla

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Por que não escolher uma cesariana?


Leitura recomendadíssima para as gestantes

Por Ana Cristina Duarte.

Antes de mais nada, preciso pontuar cinco idéias rápidas: primeiro, entendo que a cesariana por escolha é um direito da mulher, ela tem direito e ela pode fazer e pronto. Segundo, a via de parto e a amamentação não definem a qualidade da mãe ou da maternagem. Terceiro, o objetivo dessa conversa não é trazer culpa a quem escolheu ou vai escolher, mas sim conhecimento para quem quiser entender essas opções. Quarto, algumas cesarianas são necessárias e paciência, não há o que se fazer, pois a vida da criança é mais importante. Quinto, a maioria das cesarianas indicadas nos serviços privados de saúde são sob falsas alegações, mas não tem como a mãe saber disso.

1) Uma das maiores razões para as mulheres escolherem a cesariana é a questão da dor. Deixando de lado todo o resto, acho que esse ponto é mesmo nevrálgico e merece uma atenção especial. Como o objetivo aqui é ser curta (e não grossa), lembro que hoje em dia existem analgesias muito boas que podem ser usadas a qualquer momento que a mulher deseje. Se quiser ter um trabalho de parto inteiro sem sentir nada (o que seria uma pena, mas é um direito e às vezes a única maneira de enfrentar o medo da dor), exija a presença de um bom anestesista. Fora isso, lembre-se que as coisas começam a ficar intensas mesmo depois da metade do trabalho de parto. Antes disso são apenas umas cólicas rápidas e curtas, perfeitamente suportáveis. A vantagem é que quando o parto acabar, você não está operada. Você levanta e vai cuidar da vida sem qualquer preocupação com uma cirurgia. Claro que você pode levantar e cuidar da vida após a cesariana.

2) Outra razão comum é achar que o bebê corre menos risco na cesariana. Já existem tantos estudos científicos mostrando o quanto é maior o risco da cesariana para o bebê, que não vou poder enumerar aqui. Se você está na dúvida e só falta essa questão para escolher um parto normal, informe-se. A quantidade de vantagens para o bebê no parto normal é provada em todos os artigos, sem exceção. Não estou dizendo que nada acontece no parto normal, mas sim que muito mais coisas negativas podem acontecer na cesariana.

3) Tem gente que pensa que o parto normal é pior para a mãe. Essa informação não procede. Qualquer livro de medicina deixa isso bem claro. A mortalidade e a morbidade da cesariana é bem maior para a mãe. Posso atestar que o parto normal não vai fazer você ficar diferente "lá embaixo". Na dúvida, conheça o site www.mulheres.org.br/fiqueamigadela
E se estiver ao seu alcance, exija um parto sem episiotomia. 

4) Embora o parto não defina a qualidade da maternagem, e não defina quem vai ser aquela pessoa, o fato é que há uma grande diferença pra o bebê entre ser retirado do útero materno sem aviso prévio, sem os hormônios que o preparam para a vida fora do ventre materno, e permitir que ele passe pelo processo de forma natural, fisiológica, cumprindo as metas que a natureza selecionou durante mais de cem mil anos. O parto não é, para o bebê, uma perigosa tormenta, mas sim um caminho muito previsto e importante para prepará-lo para a vida. Assim como podemos evitar que bebês engatinhem para não se sujarem, colocando-os em andadores, e eles não serão pessoas piores ou infelizes por isso, o fato é que esse tipo de salto não é benéfico e não tem como calcularmos objetivamente e em números concretos aquilo de que o bebê está sendo privado. Podemos sempre nos repetir e acreditar que são apenas minutos ou horas, e que isso não faz diferença na vida nossa ou deles. O melhor seria, no entanto, que todas nós tivéssemos acesso a um bom parto, para podermos oferecer aos nossos filhos e a nós mesmas um bom processo de nascimento. Até mesmo o choro de um bebê retirado de forma repentina e levado para um berço aquecido para os "procedimentos" é completamente diferente daquele que nasce devagar, sem pressa, na água, na cama, e é colocado imediatamente em contato pele-a-pele com sua mãe. Se achamos ruim deixar a criança chorando sozinha no carrinho "para acostumar", porque seria normal deixar um recém nascido se debater num berço iluminado cercado por estranhos que lhe inserem tubos no nariz, na boca, no ânus, e lhe pingam colírio cáustico e lhe picam a perna com uma injeção oleosa? Porque achamos que isso não faz qualquer diferença para a construção do indivíduo?

5) Por fim vem a questão mais importante para mim, que é o parto como um evento, e não como uma obrigação. O parto não é apenas o preço que temos que pagar para sermos mães de um bebê. Podemos inclusive adotar e sermos mães adotivas maravilhosas. No entanto o parto pode ser, por si só, um processo muito bom, divertido, intenso, cheio de momentos incríveis, para toda a família. Até os irmãos mais velhos podem ajudar e se sentir participantes dessa festa. O parto é algo que você pode recriar em sua mente, tentando esquecer aquelas histórias horrorosas que te contaram desde que você nasceu, porque essas histórias são de um modelo de assistência que não precisa ser utilizado. Você pode desejar, escolher e exigir um bom parto. Planeje, escolha pessoas interessantes e um modelo de assistência no qual você acredite. Fuja do estereótipo da mulher gritando nua na sala com as pernas abertas sob os holofotes e uma equipe de 12 homens olhando para o meio delas e colocando seus dedos e ferros nervosos lá dentro. Parto não é isso (ou não deveria ser isso). Existem opções. Natural ou com analgesia, mas com muito respeito, decência, privacidade, delicadeza, o parto pode ser um maravilhoso portal para inaugurarmos a maternidade. Pode ser também uma oportunidade impar para se superar os limites, para conhecer novas fronteiras. O bom parto não é uma obrigação. É apenas um direito de toda mulher e de todo bebê.

6) O parto pode ser ou pode não vivenciado. O nascimento vai ocorrer, sempre, e o bebê vai ser muito amado independente de onde saia. O fato é que no Brasil é uma escolha que as mulheres têm, parir ou não parir, eis a questão. Você pode, se quiser, fazer uma escolha diferente e transformar o parto num lindo evento. Mais ou menos como o casamento, você pode viver com alguém sem qualquer cerimônia simbólica. O objetivo da cerimônia é mais do que dar trabalho e fazer a gente gastar um dinheiro enorme, e não é ela que define a qualidade do casamento. O objetivo é marcar o evento, transformar num dia marcante, porque os outros que virão estarão repletos de bons e maus momentos, e vai ser maravilhoso poder voltar naquele dia e lembrar "do dia em que nos casamos". Claro que ir morar junto, levar a mobília e guardar as escovas de dentes juntos tem todo um valor simbólico. Afinal foi "o dia em que fomos morar juntos". Não dá para dizer que é a mesma coisa que fazer uma cerimônia, essa é a verdade. E nem vai dar para chamar de "Cerimônia do Casamento" o dia em que pusemos as escovas de dentes no mesmo copo. Quando abrimos mão de um evento desses, não estamos fadando o resto ao fracasso, não se trata disso. Apenas estamos perdendo uma grande chance de fazer algo muito especial. Comparativamente, não vamos chamar de parto o dia em que nos deitamos para a cirurgia cesariana. No Brasil começamos até a usar o eufemismo "parto cesáreo", depois que a cesariana virou um produto de consumo como qualquer outro, para mudar a impressão que a sociedade tem dessa cirurgia. Até mesmo os médicos obstetras estão usando o eufemismo, evitando eles mesmos enfrentarem a cruel realidade de que estão operando esse absurdo número de mulheres todos os anos.

Em suma, você pode e deve exigir seus direitos. Você pode usar mecanismos legais para garantir o que deseja. Salientando mais uma vez, escolher um parto normal não vai fazer uma mãe melhor. Apenas vai garantir que o seu bebê passe e seja recebido no mundo de uma forma diferente. Vai também garantir e permitir que você conheça novas nuances das possibilidades do seu corpo. Novos limites, novas possibilidades! E depois tem todo o resto, que também é importante. A criação, a amamentação, os cuidados, o apego, o carinho, o amor, etc. Você pode pular apenas uma das etapas e dar o seu melhor em todas as outras. Você pode não pular a etapa. Você pode ser obrigada a pular etapas, quer por limitações físicas, quer pela força do sistema médico. Isso não implica em "mãe melhor e mãe pior". Tenha apenas a certeza de ter e olhar de verdade todas as cartas no baralho antes de escolher o coringa. Eu tenho certeza que você já é ou será uma ótima mãe. Mas não é disso que estamos falando, combinado?

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

A luta pelo parto normal após cesárea prévia

Tenho acompanhado diversos casos de amigas tentando o VBAC (parto vaginal após cesárea) e isso me faz sugerir duas reflexões bem importantes. A primeira está na questão: Por que mulheres que tiveram cesáreas desnecessárias, e inclusive muitas vezes até eletivas estão buscando agora um parto normal? E a segunda é a confirmação de que no Brasil só pare realmente quem luta por isso, e se para ter um parto normal numa primeira gestação já é missão bem complicada, o que diremos depois de uma cesárea?
Vamos focar um pouco na primeira questão.
Por que raios essas mulheres querem nadar contra a maré, se já passaram pela "facilidade" e comodidade de uma cesárea? Não estou nem falando das que por algum motivo necessário não puderam ter tido o parto normal, mas sim daquelas que escolheram ou aceitaram a cesárea e agora estão procurando como agulha em um palheiro um obstetra que lhes permita um parto normal. Muitas vezes não tem apoio de ninguém, nem amigos, família ou até marido. Se acabam conseguindo ou não, é discussão para a próxima questão. Mas o fato é esse, ALGUMA COISA acontece dentro dessa mulher que a faz buscar o parto normal na segunda vez.
Conversando com algumas amigas que fazem parte desse perfil, os motivos estão entre esses:
* "Não tive acesso a tanta informação, acabei aceitando a sugestão do médico por conveniência e hoje sei que esperar a hora do bebê nascer e que o parto normal são mais benéficos"
* "A ansiedade na reta final da gravidez me fez antecipar o parto, mas me arrependo de não ter esperado o trabalho de parto"
* "Agendei a cesárea para 38 semanas mas meu bebê nasceu muito pequeno / ou meu bebê teve dificuldade para mamar, coisa que se tivesse esperado o tempo dele não teria acontecido"
* "Tive uma recuperação muito ruim e senti muita dor por dias. Prefiro sentir a dor do parto da próxima vez e me recuperar bem"
*"Foi tudo frio, mecânico. Sinto que com o parto normal me sentirei mais mulher"

Não são algumas mulheres, mas muitas que passam por isso. E seja lá o quê, alguma coisa as faz buscar com muita vontade um parto normal. E é aí que a situação complica, porque quase não existe médico que queira fazer o parto.
Uma questão já é geral: médico de convênio não quer mesmo fazer parto normal. Adora achar um motivo pra indicar uma cesárea. Então se a mulher já tem cesárea prévia, o motivo já está dado.
Começa uma saga que cansa, desgasta, até agride a dignidade de uma mulher, mas pode acabar numa experiência muito transformadora.
Meu post foi bem para reflexão mesmo, pois tenho observado muito esses casos. Se a cesárea fosse mesmo  escolha da mulher, e principalmente UMA ESCOLHA CONSCIENTE, não haveria tanta mulher buscando o VBAC. Uma escolha só pode ser consciente quando se conhece bem as opções,e na verdade tem tanta mulher fazendo cesárea "por escolha" porque foi totalmente induzida a isso, seja pelo médico ou pela cultura da sociedade.
Se aconteceu com você, não desanime. É possível sim, e totalmente possível ter um parto após uma cesárea, mas com certeza você terá que lutar por isso. A escolha de um obstetra humanizado (e realmente em convênio é bem difícil achar), profissionais como uma doula, e um grupo de apoio são fundamentais.
O bom é que, por ser mais difícil, normalmente quando se consegue, é um parto muito bem sucedido e um evento muito satisfatório, porque a mulher acabou se amparando em profissionais que realmente fazem a diferença.
Por isso que é tão importante buscar informações para formar uma opinião consciente. Se cair na cesárea desnecessária uma vez, o caminho de volta pode ser árduo demais.

E você, por que busca um parto normal após cesárea prévia?
Conte seus motivos.

Por Marcela Buchalla 

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Um registro para a posteridade / Se é pra ser louca eu também sou

Eu não poderia ficar fora dessa. Não mais. Na semana mais importante da maternidade ativa e da luta das mulheres por suas escolhas eu também estava lá.




Quando nasceu meu filho, nasceu também muitos sentimentos em mim. Nasceu, claro, uma mãe apaixonada, dedicada. Nasceu um amor infinito, uma paciência sem tamanho, uma daquelas como tantas outras que se desdobra em mil para conseguir dar conta de si mesma e de outro ser. Mas nasceu uma outra pessoa, ou melhor, minha própria pessoa se expandiu, cresceu. Acolheu outros filhos, e principalmente outras mães. Acolheu mulheres que nunca tive contato ou qualquer informação. Acolheu outras dores, outras lágrimas, outras lutas e abraçou com a mesma emoção com que se abraça um filho outras emoções e felicidades.

Eu senti essa força invisível e essa energia colorida no último domingo. Eu senti um abraço frenético de milhares de mães, senti o calor de mãos desconhecidas e invisíveis e ouvi os gritos entalados em tantas gargantas. Gritei junto, cantei junto e como todas essas mulheres eu voltei pra casa maior ainda e com tanta certeza de que as coisas caminham, mesmo que em passos de tartaruga.
Lembrei da história da menina que jogava as estrelas do mar quase mortas na areia de volta ao mar, numa extensão de praia infinita. A pequenina não podia fazer todo o trabalho, mas seu ato salvava algumas estrelas e para ela isso fazia sentido.

Ridicularizaram e ninguém entendeu qual a importância de uma Marcha para o Parto em Casa. Realmente não é fácil entender, se você nunca prestou atenção no que anda acontecendo de tão grave com nossas mulheres. Aconteceu aqui ao meu lado, aconteceu na minha frente, nas minhas costas, antes e depois de mim. Aconteceu também por aí, com você, com suas amigas, com sua família, com toda população em geral. Mas não é tão fácil assim perceber se você vive numa sociedade corrupta, capitalista e antinatural.
Andam roubando nosso dinheiro, é verdade. E não bastassem isso, andam roubando agora nossas vidas e nossos corpos. Pior do que tudo isso é que agora também roubam nossas escolhas.
As muitas que não perceberam não estão entendendo tanto estardalhaço, pois é tão comum a gente abaixar a cabeça e aceitar sem nem se perguntar o porquê. Sem nem se dar conta de que na verdade estamos indo a favor de um sistema que só tem nos prejudicado.

O que a maioria não entendeu, e nem poderia, porque realmente não se deu conta do perigoso modelo obstétrico do nosso país que é "singelamente imposto" a nós, é que a Marcha do Parto em Casa não é uma apologia ao parto domiciliar, nem procura substituir outros tipos de parto. É sim uma luta para que nosso direito de escolha seja preservado, para que possamos ter direito realmente a nossa escolha de parto. Foi uma manifestação contra o sistema obstétrico, cada vez mais tendencioso, intervencionista e desumano, embora hoje seja moda falar em parto humanizado. Parece piada os conselhos de medicina dizerem que estão humanizando os partos nos hospitais.

Por que será que as mulheres que buscam mais informações estão optando por partos domiciliares? Não é porque são loucas, comodistas, irresponsáveis, hippies, antigas ou excêntricas... Pelo contrário, são mulheres muito bem informadas que prezam pela saúde, pelos seus corpos, pela vida... Porque se respeitam, respeitam seu corpo e a vida que carregam dentro de si. Sabem que sua sábia fisiologia, seus instintos, suas vozes interiores não podem ser caladas por ganância, por modelos arbitrários e desumanos. Gostariam de parir em hospitais, sim... Mas então por que essa luta contra o parto hospitalar atual? Por vários motivos, entre eles, alguns principais: 

*Porque não conseguem: a rede privada hoje nos mostra mais de 90% de cesarianas, porque é mais rápido e mais fácil para o médico e para o hospital. Tudo devidamente agendado de forma com que possam atender o maior número de mulheres possível, de uma forma bem industrializada e mecânica. As poucas que conseguem são as que correram atrás, as que procuraram médicos favoráveis ou pagaram particular, ou até mesmo acharam meios de driblar os médicos tão disseminadores da cesária eletiva.

*Porque sofrem intervenções comprovadamente desnecessárias e contraindicadas: técnicas de indução como o médico estourar a bolsa e soro com ocitocina sintética para acelerar o trabalho de parto (o corpo é sábio, é fisiológico o processo do trabalho de parto. Intervenções desnecessárias podem sim prejudicá-lo, ou no mínimo, fazer a mulher sentir mais dor); episiotomia de rotina (corte no períneo, muitas vezes sem a  menor necessidade). Sem contar nos procedimentos de rotina que dedicam ao recém-nascidos (não, a maioria deles NÃO são necessários!!).

*Porque sofrem humilhações ou são alvos de comentários maldosos (frases do tipo: se você gritar eu não te ajudo / ué, você não queria parto normal? / esse bebê enorme vai fazer um estrago/ melhor evitarmos sofrimento fetal e fazermos logo a cesária / pequena como você é não deveria nem arriscar)

*Porque estão em ambiente frio e desconhecido, o que aumenta muito o nível de estresse e tensão, com profissionais muitíssimas vezes despreparados para lidar com pessoas

Essas mulheres gostariam de parir, inclusive pelo SUS, sem ter que gastar muitas vezes o que não poderiam, uma das provas disso é que mulheres que optam pelo parto domiciliar também são simpatizantes das casas de parto, lugares muitas vezes gratuitos e nada luxuosos mas que recebem com humanidade e dignidade a parturiente e seu bebê. Mas fogem, no entanto, dos hospitais do SUS, porque o nível de submissão e anulação da mulher é  ainda maior do que nos hospitais privados. É rotineiro ver mulheres aterrorizadas com os partos que tiveram, não faltam histórias para serem contadas e ouvidas.

Então, essas mulheres começaram a não achar isso normal! Não conseguiram engolir o modelo obstétrico de "cesariana a todo custo ou então se você quer parto normal vai sofrer". Ninguém é obrigado a passar por isso. Não quando a pessoa se dá conta que ela é dona da própria vida, dona do seu corpo, dona das suas escolhas e sabe que pode conseguir algo melhor. 
Ela escolhe parto em casa porque os profissionais que a acompanham compartilham da mesma idéia de humanização e dignidade da mulher. São enfermeiras, obstetrizes, doulas, que sabem o quanto este momento é sagrado, único, divino na vida de uma mulher e de um bebê que está para chegar ao mundo. Essa mulher,  "a louca", é respeitada durante toda sua gestação, sem que ninguém influencie "como quem não quer nada" o tipo de parto (os médicos adoram jogar comentariozinhos ao vento sobre o quanto um parto normal pode ser sofrido ou como a cesariana é o que toda mulher pediu a Deus). Ela também é respeitada no final de sua gestação, sem que ninguém a pressione ou a imponha uma data ou um prazo que não existe (Esperamos até 40 semanas e nada mais). Ela será preparada para fatores importantes como preparação do períneo (coisa que nunca ouvi nenhum médico falar p/ nenhuma gestante). Ela é orientada quanto aos sinais do seu corpo, é acolhida quando apresenta algum receio, aprende de que formas pode agir para passar com mais tranquilidade e harmonia por esse momento de transformação. Ela ouvida, acarinhada, está em sua casa com pessoas queridas e preparadas para isso, recebe palavras de apoio e de orientação, recebe massagem nas costas durante as contrações e técnicas de relaxamento e respiração para aliviar as dores.
Ela pode entrar na banheira, pode ficar agachada no chão, pode deitar no colo do marido, pode ficar de cócoras, ou tudo isso, não necessariamente nessa mesma ordem e quantas vezes e como quiser. Ela não está em jejum, não está com soro, nem presa numa maca de hospital. Ela pode, e deve, esperar o seu corpo ditar o ritmo e simplesmente se deixar levar. Ela receberá seu bebê nos braços num sopro de alívio e alegria.
Você está acostumada com os partos hospitalares e acha que tem que ser daquele jeito mesmo pois é seguro para a mãe e o bebê. E eu te aconselho a se informar melhor sobre os perigos que podem acontecem em cada tipo de parto e você vai se assustar. Você nunca mais pensará da mesma forma depois de estudar um pouco.
Essa, que pariu de forma humana cercada de cuidados especiais, "a louca" que dizem por aí, ela tem medo de uma coisa: do parto hospitalar- padrão. Ui, até me arrepiou.
Eu, essa nova louca aqui, que vos fala, teve um parto difícil (entenda-se por difícil: mal assistido e não difícil porque eu tenho defeito de fábrica como a maioria das brasileiras hoje em dia aceita que tem e não poderiam parir) num belo hospital de São Paulo, muito bonito e chique e desses que tem os índices de cesariana bem acima dos 90%. No dia do meu parto, todos os outros 15 partos eram cesárias.
O meu próximo?? Graças a Deus, espero, passarei por um parto totalmente humanizado, porque EU POSSO ESCOLHER. Obrigada às poucas mulheres que juntas comigo lutam por esse direito. Um dia, não muito longe, seremos a maioria.

Não necessariamente esse parto precisa ser em casa. E inclusive, parto em casa, realmente não é para todas. Tem que ser de baixíssimo risco, planejado e estruturado. Mas o parto humanizado deveria sim ser para todas.
Esse é um modelo que pode, e se Deus quiser vai estar disponível para a maioria das mulheres do país, também em hospitais e casas de parto.

Meu obrigada a todos aqueles que criticaram, difamaram e ridicularizaram aquelas que saíram às ruas. Realmente vocês estão num nível muito baixo de percepção da realidade. Mas eu entendo, quando você faz parte de um sistema muito corrompido é muito difícil enxergar. 

Por Marcela Buchalla