sexta-feira, 22 de junho de 2012

Um registro para a posteridade / Se é pra ser louca eu também sou

Eu não poderia ficar fora dessa. Não mais. Na semana mais importante da maternidade ativa e da luta das mulheres por suas escolhas eu também estava lá.




Quando nasceu meu filho, nasceu também muitos sentimentos em mim. Nasceu, claro, uma mãe apaixonada, dedicada. Nasceu um amor infinito, uma paciência sem tamanho, uma daquelas como tantas outras que se desdobra em mil para conseguir dar conta de si mesma e de outro ser. Mas nasceu uma outra pessoa, ou melhor, minha própria pessoa se expandiu, cresceu. Acolheu outros filhos, e principalmente outras mães. Acolheu mulheres que nunca tive contato ou qualquer informação. Acolheu outras dores, outras lágrimas, outras lutas e abraçou com a mesma emoção com que se abraça um filho outras emoções e felicidades.

Eu senti essa força invisível e essa energia colorida no último domingo. Eu senti um abraço frenético de milhares de mães, senti o calor de mãos desconhecidas e invisíveis e ouvi os gritos entalados em tantas gargantas. Gritei junto, cantei junto e como todas essas mulheres eu voltei pra casa maior ainda e com tanta certeza de que as coisas caminham, mesmo que em passos de tartaruga.
Lembrei da história da menina que jogava as estrelas do mar quase mortas na areia de volta ao mar, numa extensão de praia infinita. A pequenina não podia fazer todo o trabalho, mas seu ato salvava algumas estrelas e para ela isso fazia sentido.

Ridicularizaram e ninguém entendeu qual a importância de uma Marcha para o Parto em Casa. Realmente não é fácil entender, se você nunca prestou atenção no que anda acontecendo de tão grave com nossas mulheres. Aconteceu aqui ao meu lado, aconteceu na minha frente, nas minhas costas, antes e depois de mim. Aconteceu também por aí, com você, com suas amigas, com sua família, com toda população em geral. Mas não é tão fácil assim perceber se você vive numa sociedade corrupta, capitalista e antinatural.
Andam roubando nosso dinheiro, é verdade. E não bastassem isso, andam roubando agora nossas vidas e nossos corpos. Pior do que tudo isso é que agora também roubam nossas escolhas.
As muitas que não perceberam não estão entendendo tanto estardalhaço, pois é tão comum a gente abaixar a cabeça e aceitar sem nem se perguntar o porquê. Sem nem se dar conta de que na verdade estamos indo a favor de um sistema que só tem nos prejudicado.

O que a maioria não entendeu, e nem poderia, porque realmente não se deu conta do perigoso modelo obstétrico do nosso país que é "singelamente imposto" a nós, é que a Marcha do Parto em Casa não é uma apologia ao parto domiciliar, nem procura substituir outros tipos de parto. É sim uma luta para que nosso direito de escolha seja preservado, para que possamos ter direito realmente a nossa escolha de parto. Foi uma manifestação contra o sistema obstétrico, cada vez mais tendencioso, intervencionista e desumano, embora hoje seja moda falar em parto humanizado. Parece piada os conselhos de medicina dizerem que estão humanizando os partos nos hospitais.

Por que será que as mulheres que buscam mais informações estão optando por partos domiciliares? Não é porque são loucas, comodistas, irresponsáveis, hippies, antigas ou excêntricas... Pelo contrário, são mulheres muito bem informadas que prezam pela saúde, pelos seus corpos, pela vida... Porque se respeitam, respeitam seu corpo e a vida que carregam dentro de si. Sabem que sua sábia fisiologia, seus instintos, suas vozes interiores não podem ser caladas por ganância, por modelos arbitrários e desumanos. Gostariam de parir em hospitais, sim... Mas então por que essa luta contra o parto hospitalar atual? Por vários motivos, entre eles, alguns principais: 

*Porque não conseguem: a rede privada hoje nos mostra mais de 90% de cesarianas, porque é mais rápido e mais fácil para o médico e para o hospital. Tudo devidamente agendado de forma com que possam atender o maior número de mulheres possível, de uma forma bem industrializada e mecânica. As poucas que conseguem são as que correram atrás, as que procuraram médicos favoráveis ou pagaram particular, ou até mesmo acharam meios de driblar os médicos tão disseminadores da cesária eletiva.

*Porque sofrem intervenções comprovadamente desnecessárias e contraindicadas: técnicas de indução como o médico estourar a bolsa e soro com ocitocina sintética para acelerar o trabalho de parto (o corpo é sábio, é fisiológico o processo do trabalho de parto. Intervenções desnecessárias podem sim prejudicá-lo, ou no mínimo, fazer a mulher sentir mais dor); episiotomia de rotina (corte no períneo, muitas vezes sem a  menor necessidade). Sem contar nos procedimentos de rotina que dedicam ao recém-nascidos (não, a maioria deles NÃO são necessários!!).

*Porque sofrem humilhações ou são alvos de comentários maldosos (frases do tipo: se você gritar eu não te ajudo / ué, você não queria parto normal? / esse bebê enorme vai fazer um estrago/ melhor evitarmos sofrimento fetal e fazermos logo a cesária / pequena como você é não deveria nem arriscar)

*Porque estão em ambiente frio e desconhecido, o que aumenta muito o nível de estresse e tensão, com profissionais muitíssimas vezes despreparados para lidar com pessoas

Essas mulheres gostariam de parir, inclusive pelo SUS, sem ter que gastar muitas vezes o que não poderiam, uma das provas disso é que mulheres que optam pelo parto domiciliar também são simpatizantes das casas de parto, lugares muitas vezes gratuitos e nada luxuosos mas que recebem com humanidade e dignidade a parturiente e seu bebê. Mas fogem, no entanto, dos hospitais do SUS, porque o nível de submissão e anulação da mulher é  ainda maior do que nos hospitais privados. É rotineiro ver mulheres aterrorizadas com os partos que tiveram, não faltam histórias para serem contadas e ouvidas.

Então, essas mulheres começaram a não achar isso normal! Não conseguiram engolir o modelo obstétrico de "cesariana a todo custo ou então se você quer parto normal vai sofrer". Ninguém é obrigado a passar por isso. Não quando a pessoa se dá conta que ela é dona da própria vida, dona do seu corpo, dona das suas escolhas e sabe que pode conseguir algo melhor. 
Ela escolhe parto em casa porque os profissionais que a acompanham compartilham da mesma idéia de humanização e dignidade da mulher. São enfermeiras, obstetrizes, doulas, que sabem o quanto este momento é sagrado, único, divino na vida de uma mulher e de um bebê que está para chegar ao mundo. Essa mulher,  "a louca", é respeitada durante toda sua gestação, sem que ninguém influencie "como quem não quer nada" o tipo de parto (os médicos adoram jogar comentariozinhos ao vento sobre o quanto um parto normal pode ser sofrido ou como a cesariana é o que toda mulher pediu a Deus). Ela também é respeitada no final de sua gestação, sem que ninguém a pressione ou a imponha uma data ou um prazo que não existe (Esperamos até 40 semanas e nada mais). Ela será preparada para fatores importantes como preparação do períneo (coisa que nunca ouvi nenhum médico falar p/ nenhuma gestante). Ela é orientada quanto aos sinais do seu corpo, é acolhida quando apresenta algum receio, aprende de que formas pode agir para passar com mais tranquilidade e harmonia por esse momento de transformação. Ela ouvida, acarinhada, está em sua casa com pessoas queridas e preparadas para isso, recebe palavras de apoio e de orientação, recebe massagem nas costas durante as contrações e técnicas de relaxamento e respiração para aliviar as dores.
Ela pode entrar na banheira, pode ficar agachada no chão, pode deitar no colo do marido, pode ficar de cócoras, ou tudo isso, não necessariamente nessa mesma ordem e quantas vezes e como quiser. Ela não está em jejum, não está com soro, nem presa numa maca de hospital. Ela pode, e deve, esperar o seu corpo ditar o ritmo e simplesmente se deixar levar. Ela receberá seu bebê nos braços num sopro de alívio e alegria.
Você está acostumada com os partos hospitalares e acha que tem que ser daquele jeito mesmo pois é seguro para a mãe e o bebê. E eu te aconselho a se informar melhor sobre os perigos que podem acontecem em cada tipo de parto e você vai se assustar. Você nunca mais pensará da mesma forma depois de estudar um pouco.
Essa, que pariu de forma humana cercada de cuidados especiais, "a louca" que dizem por aí, ela tem medo de uma coisa: do parto hospitalar- padrão. Ui, até me arrepiou.
Eu, essa nova louca aqui, que vos fala, teve um parto difícil (entenda-se por difícil: mal assistido e não difícil porque eu tenho defeito de fábrica como a maioria das brasileiras hoje em dia aceita que tem e não poderiam parir) num belo hospital de São Paulo, muito bonito e chique e desses que tem os índices de cesariana bem acima dos 90%. No dia do meu parto, todos os outros 15 partos eram cesárias.
O meu próximo?? Graças a Deus, espero, passarei por um parto totalmente humanizado, porque EU POSSO ESCOLHER. Obrigada às poucas mulheres que juntas comigo lutam por esse direito. Um dia, não muito longe, seremos a maioria.

Não necessariamente esse parto precisa ser em casa. E inclusive, parto em casa, realmente não é para todas. Tem que ser de baixíssimo risco, planejado e estruturado. Mas o parto humanizado deveria sim ser para todas.
Esse é um modelo que pode, e se Deus quiser vai estar disponível para a maioria das mulheres do país, também em hospitais e casas de parto.

Meu obrigada a todos aqueles que criticaram, difamaram e ridicularizaram aquelas que saíram às ruas. Realmente vocês estão num nível muito baixo de percepção da realidade. Mas eu entendo, quando você faz parte de um sistema muito corrompido é muito difícil enxergar. 

Por Marcela Buchalla

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